Estudo 02 | EBD PECC | Ezequiel 2 e 3 – O Chamado de Ezequiel | 1° Trimestre de 2026
- Pastor Ivo Costa
- 17 de jan.
- 8 min de leitura
TEXTO ÁUREO
E disse-me: Filho do homem, eu te envio aos filhos de Israel, às nações rebeldes que se rebelaram contra mim; eles e seus pais transgrediram contra mim até este mesmo dia. Ezequiel 2:3
Leitura Bíblica Com Todos: Ezequiel 2.1-3,4
Verdade Prática
O chamado de Deus exige coragem e fidelidade para proclamar a Sua palavra, mesmo diante da rejeição.
INTRODUÇÃO
O livro de Ezequiel apresenta um dos chamados proféticos mais vívidos e impactantes das Escrituras.
I- DEUS CHAMA EZEQUIEL (2.1-7)
Ao chamar seu profeta, Deus lhe diz algumas coisas. Vejamos:
1- “Põe-te em pé” (2.1) Esta voz me disse: Filho do homem, põe-te em pé, e falarei contigo.
Deus chama Ezequiel repetidamente de “Filho do homem”. Esse título é usado 174 vezes na Bíblia: 93 vezes a respeito de Ezequiel no seu livro; uma vez só a respeito de Daniel (Dn 8.17); uma vez é aplicado a um ser misterioso num contexto messiânico (Dn 7.13) e 80 vezes referindo-se a Jesus. Ele enfatiza a humanidade frágil, bem como a unidade e identificação do profeta com seu povo. “Põe-te em pé!” não é apenas física, mas um chamado à postura espiritual de prontidão, atenção e submissão. O Espírito (Ruach) que entra nele capacita essa ação impossível para o homem natural: erguer-se diante do Santo. Uma primeira lição a tirarmos daqui é que todo encontro com Deus é um encontro missionário. Ezequiel não se encontra com Deus, é Deus que vai ao seu encontro e o comissiona, Devemos guardar isso no coração: Deus nunca desperdiça gente disponível. Talvez Ezequiel sentia-se frustrado pois estava impedido de exercer seu ministério sacerdotal visto estar em terra estrangeira e o templo ter sido destruído. Deus então o chama para algo maior e que ele jamais havia imaginado. Deus é assim, surpreendente no que faz. Lembremos disto, quando nossos planos são frustrados, é Deus nos lembrando que o roteiro não é nosso.
2- “Eu te envio” (2.3) Ele me disse: Filho do homem, eu te envio aos filhos de Israel, às nações rebeldes que se insurgiram contra mim; eles e seus pais prevaricaram contra mim, até precisamente ao dia de hoje.
Deus especifica o destinatário da mensagem: principalmente o povo da aliança, “os filhos de Israel, mas também as nações estrangeiras. Contudo, a descrição que Deus faz dos filhos de Judá é devastadora, chamando-os de: “casa rebelde”, “que se revoltou contra mim”. O termo “rebelde” (mordim) carrega a ideia de revolta intencional e contumaz. À referência aos antepassados (“seus pais”) mostra que esta rebeldia não é um fenômeno novo, mas uma característica arraigada e geracional. O profeta é enviado a um povo que historicamente rejeitou os mensageiros divinos. A mudança do local não mudou o coração dos judeus levados cativos em 605 a.€., 597 a.C, e 586 a.C. Ezequiel usou a frase “casa rebelde” por 16 vezes no seu livro. O diagnóstico é triste, mas também verdadeiro, pois vinha do próprio Deus. O pior é Deus dizer que se o enviasse às outras nações elas o ouviriam, mas Israel não o ouvirá. Isso é um alerta para todos nós. Ouvimos com alegria a voz de Deus? Mesmo quando ela nos confronta? Ou apenas queremos ter o ego massageado? Deus chamou Ezequiel para conduzir Israel ao arrependimento e isso implica dizer-lhes a verdade, Se o propósito fosse ser aplaudido ele diria ao povo o que queriam ouvir.
3- “Não temas nem te assustes” [2.6) Tu, ó filho do homem, não os temas, nem temas as suas palavras, ainda que haja sarças e espinhos para contigo, e tu habites com escorpiões; não temas as suas palavras, nem te assustes com o rosto deles, porque são casa rebelde.
Deus diz a Ezequiel qual atitude espera dele frente a dura missão que lhe aguarda. À resistência que ele enfrentará é descrita com intensidade: “semblante duro” (caras feias) e “obstinados de coração” (2.4). “Semblante duro” sugere insolência, desafio aberto, falta de temor. “Coração obstinado” aponta para uma teimosia interior, uma recusa inabalável em mudar de atitude, Deus não oferece a Ezequiel nenhuma ilusão de glória. Israel é uma casa em revolta e o profeta não deve ser surpreendido se rejeitarem sua mensagem. Apesar desta condição desesperadora, a ordem de Deus é clara: “tu lhes dirás: Assim diz o Senhor”. A autoridade da mensagem reside no emissor, não está na receptividade do auditório ou na habilidade do profeta. A fidelidade a entrega da mensagem é o imperativo, independente da resposta. Se não aceitassem de imediato, um dia viriam a saber que um profeta esteve no meio deles.
II- DEUS CAPACITA EZEQUIEL (2.8-10; 3.1-4)
Aonde a vontade de Deus nos leva, a sua graça nos sustenta e capacita. Deus nos conhece melhor do que nós mesmos. Sabe das nossas fraquezas, mas se dispõe a nos usar apesar delas. Quem é chamado será equipado à altura do chamado.
1- Advertindo (2.8) Tu, ó filho do homem, ouve o que eu te digo, não te insurjas como a casa rebelde; abre a boca e come o que eu te dou.
Antes de receber a mensagem, Ezequiel recebe uma advertência crucial sobre sua própria postura. O comando “não sejas rebelde” usa o mesmo verbo aplicado ao povo. Ele precisava vigiar para não incorrer nos mesmos pecados daqueles aos quais denunciava, senão sua mensagem perderia o efeito. O perigo do profeta é imitar aqueles a quem deve confrontar. A exortação “abre a tua boca e come o que eu te der” exige uma obediência ativa e total, mesmo diante do desconhecido. A identificação do pregador com os pecados do povo ao qual prega é uma tentação constante ontem, e hoje. Como disse John Owen: “Ninguém prega bem aos outros, se não prega primeiro para o seu próprio coração: À fidelidade de Ezequiel precisava ser inegociável. Ele deve ser o contraponto da rebelião que denuncia. Não é a grandes talentos que Deus abençoa de forma especial, mas a grande semelhança com Ele mesmo.
2- Alimentando-se da Palavra (3.3) E me disse: Filho do homem, dá de comer ao teu ventre e enche as tuas entranhas deste rolo que eu te dou. Eu o comi, e na boca me era doce como o mel
Assim como uma criança à mesa, Ezequiel é ordenado a comer tudo o que Deus lhe oferece. A ordem de comer o rolo é única e poderosa. Significa internalizar completamente a mensagem. Não é conhecimento intelectual apenas, mas assimilação total, tornando-se parte integrante do seu ser. A descrição do sabor “doce como o mel” é surpreendente. Apesar do conteúdo de julgamento, a própria Palavra de Deus, quando verdadeiramente internalizada, traz uma doçura profunda ao profeta – a doçura da obediência, da comunhão com Deus e da certeza de estar cumprindo Sua vontade. Ezequiel é um homem cheio da Palavra de Deus. Ela faz parte dele, está dentro dele. Aqui está a chave da autoridade do profeta e, modernamente, do pregador do Evangelho: ele carrega dentro de si, internalizado, a Palavra de Deus. Não se pode pregar sem se alimentar do Livro. O pergaminho ou papiro estava completamente preenchido (“por dentro e por fora”). A implicação era clara: a mensagem está completa. Ezequiel não deve modificar nada, Deus não permite nenhum espaço para ajustes. O conteúdo do rolo é descrito com três palavras: “lamentações, prantos e ais”. São palavras que expressam desastre, luto e julgamento iminente. Esta não é uma mensagem de fácil aceitação ou conforto superficial; é um diagnóstico severo do pecado e suas trágicas consequências.
3- Autorizando (3.11) Eia, pois, vai aos do cativeiro, dos filhos do teu povo, e, quer ouçam quer deixem de ouvir, fala com eles, e dize-lhes: Assim diz o Senhor Deus.
Especialistas nos fazem saber que o estilo usado: “eu te envio aos filhos de Israel” deriva-se do estilo oficial da corte. No uso secular o verbo descreve a ação pela qual uma pessoa superior comissionava um mensageiro para falar em seu nome, Isso era muito importante porque a mais séria acusação contra um profeta era “Yahweh não te enviou” (cf. Jr 43.2). Ezequiel precisava estar consciente de quem o autorizava para não recuar. Poderiam até não ouvi-lo de imediato, mas Deus diz que saberiam que um profeta esteve no meio deles. As dificuldades que o profeta enfrentaria seriam enormes, por isso Deus diz que faria duro o seu rosto e forte a sua fronte (3.8). Isso se refere a capacitação divina. Um profeta molenga e sem firmeza não cumpriria tão difícil missão. A certeza de que era Deus que o enviara lhe daria estrutura diante das oposições.
III- DEUS O CONSTITUI COMO ATALAIA (3.16-27)
Embora estivesse em uma terra estrangeira cercado de babilônios, o chamado de Ezequiel não é para missões transculturais. Ele é chamado para ser um Atalaia no meio do seu próprio povo.
1- Eu te dei por Atalaia (3.17) Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; da minha boca ouvirás a palavra e os avisarei da minha parte.
Ezequiel foi profeta no cativeiro. O Deus que escolhe e chama os seus servos também é o Deus que define a tarefa, escolhe o campo de serviço, fornece a mensagem, e assume a responsabilidade pelo resultado. Deus define claramente a função de Ezequiel: “atalaia” (tsopheh). No Antigo Oriente Próximo, o atalaia era um vigia estratégico nas muralhas da cidade, responsável por avisar sobre perigos iminentes. Diante de um ataque ele tocava a buzina colocando os soldados em prontidão e os civis para se esconderem. Sua vida dependia de sua vigilância; a vida da cidade dependia de seu aviso. Ezequiel é constituído por Deus como vigia espiritual para a “casa de Israel”. Sua responsabilidade primária é ouvir a palavra de Deus diretamente (“da minha boca”) e transmiti-la fielmente como advertência. O profeta é um canal de alerta divino.
2- Fala ao ímpio (3.18) Quando eu disser ao perverso; Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nado disseres para o advertir do seu mau caminho, para lhe salvar a vida, esse perverso morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei.
Junto com o privilégio de vestir o manto de profeta vem também uma grande responsabilidade para a vida e para a morte. Mas fica claro na própria existência a ordem de advertir que Deus está do lado da vida, não da morte, mesmo para o ímpio. Este trecho estabelece o princípio da responsabilidade condicional, Se o atalaia (profeta), alertado por Deus sobre a maldade de alguém, se calar, o sangue do ímpio que morrer em seu pecado será demandado do profeta. Sua omissão o torna cúmplice moral. Contudo, se ele advertir e o ímpio persistir, o profeta terá salvo a própria vida, pois cumpriu seu dever. O foco não é o sucesso da mensagem (conversão), mas a fidelidade na entrega. À lealdade em serviço é medida não pelo resultado, mas pela obediência à ordem divina. A responsabilidade do profeta é inescapável.
3- Fala ao justo (3.21) No entanto, se tu avisares o justo, para que não peque, e ele não pecar, certamente, viverá, porque foi avisado; e tu salvaste a tua alma.
O princípio se aplica também ao “justo”, aquele que pratica retidão. Se o profeta não advertir sobre um pecado e desvio futuro, o justo morrerá por seu pecado, mas sua morte será cobrada do profeta negligente. Se advertido, porém, e o justo pecar, ele morrerá, mas o profeta estará livre. À afirmação considera que as pessoas não são roubadas de sua liberdade de escolher. Reforça que a mensagem profética não é só para os declaradamente ímpios, mas também para manter os fiéis no caminho, prevenindo queda. A vigilância é continua. A perseverança na fé é necessária. Não é como alguém começa a corrida que conta, mas como a termina.
APLICAÇÃO PESSOAL
Deus chama, capacita e envia Seus servos como atalaias para proclamarem Sua Palavra com fidelidade. O resultado não depende de nós mas a responsabilidade de falar com coragem e verdade é nossa.






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